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Textos/comentários a publicações de autores de outros blogs.

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Comentários

31
Out21

Comentário 141

Zé Onofre

                 141

 

2021/07/02

 

Palavras encadeadas,

Correntes,

Que arrastamos pelo papel.

Coisa espantosa

Que quantos mais se usam,

Mais insuficientes são

Para comunicar com clareza

O que na mente

É transparente.

Não sei

Se a questão está nas palavras,

Ou na tentativa vã

De por palavras explicarmos

O inexplicável.

 Não seremos nós,

Semeadores das palavras,

Que consciente,

Ou inconscientemente

Fechamos a porta,

Aprisionamos,

As palavras certas?

 

 

30
Out21

Comentário 140

Zé Onofre

                      140

 

2021/06/28

            

Uma casa abandonada,

É mais do que uma casa

Perdida no capim, 

Buracos em paredes,

Vidros perdidos na rua,

De que as heras tomaram conta,

Até ao telhado que se perde

E nem memória de caminho há.

 

Poderá ser uma casa num beco,

Abandonada de pedras

Menos de rosas que nela florescem,

Saudosas de mãos delicadas

Que outrora as mimaram.

Os pedaços de vida,

Que ainda ecoam nas suas paredes,

São também parte das ruínas.

 

Há outra inevitavelmente

A casa onde nasci.

Que a vida me obrigou a deixar.

Em frente a uma certa janela

Havia uma cama de madeira.

Se atentarmos com os olhos

De ver tempos idos,  

Há muito sepultados 

À flor da pele,

Enxergaremos dois irmãos.

 

O mais novo,

Enleado na cadência da poesia,

Que o mais velho recitava.

Espreitava 

Nas estrelas a Velhinha errante

Cuja marcha da jumentinha

Espalhava farinha

Que branqueava mais a lua e as nuvens. 

 

O mais velho

Esquecido do mais novo

Continuava perdido na poesia.

 

 - "Ai há quantos anos

Que parti chorando

Deste meu carinhoso e saudoso lar..." –

A inocência pensava

Que o mais velho escrevera aquele poema triste.

Muito mais tarde descobriria o Guerra Junqueiro.

 

Outra, agora alicerce doutra que a substituiu,

Foi o meu primeiro "asilo político".

Aos dez anos, a “tirania maternal”

Indicou-me a porta da rua.

Um asilo de luxo,

Com jantar fora de horas,

Composto por comidas preferidas,

Pijama saído do meu armário

Tudo arranjado pela "tirana"

Que fez com que o meu amigo

Descobrisse que eu precisava de cama

E me arrastou consigo.

 

O exílio foi de curta duração.

Acabou resgatado pelo pai,

Que sob as ramadas do terreiro,  

 - Zé, vamos. –

E aquele Zé, que não este,

Voou escadas abaixo

Aninhou-se sob a asa protectora

Que o levaria para o mátrio ninho.

 

Um pouco mais à frente,

Os restos fumados

De uma casa de muitas aventuras.

 

Ultimamente um vagabundo,

Poisava por ali os farrapos,

Que cobriam os seus ossos,

E a saca das sobras que pescava no lixo.

Numa noite de frio  

A fogueira que o deveria aquecer

Deixou-o, de novo,

Sob o teto de estrelas e luar,

Na cama das bermas do caminho.

 

Em tempos idos crianças alegres

Brincavam às casinhas,

Chamavam os bois,

Levavam as vacas a beber.

Bicavam com os dedos

Bagos de cachos que subiam pelo enforcado.

Cortavam milho,

Ripavam espigas da cana

Preparando-as para a esperada

E desejada desfolhada,

Passa culpas de tantas “maroteiras,”

Algumas, então, bem inconfessáveis.

 

Ao anoitecer, dos dias de cozer broa,

Quando relutante ia e não ia

Com um surdo

- Até amanhã –

A Zindinha entregava-me,

Num pano de linho uma broinha.

Nunca nenhuma outra broa foi tão boa.

  

É melhor cortar por aqui

Antes que outras venham

Agarradas quais cerejas.

   Zé Onofre

29
Out21

Comentário 139

Zé Onofre

                    139

 

2021/06/25

 

Gosto muito de bancos do jardim.

 

Não me interessa

Que seja uma pedra dormente,

Estendida na terra,

Ou assente em duas escravas.

 

Não me interessa

Que seja uma estrutura luxuosa

De ferro fundido,

Coberto com madeira pintada

Envernizada,

Ou gasta pelo uso.

 

Não me interessa

Que seja um tronco musgoso

Caído ao acaso na berma dos passeios,

Ou muito arrumadinho por mãos jardineiras.

 

Gosto deles todos.

Onde me sento a apreciar a vida

Que há para além das flores

E das árvores.

 

As crianças

Ciclistas no presente,

Futebolistas no momento,

Desconhecedores do futuro

Para onde o rego da vida os levará.

 

Aquele casal de idosos,

Parecendo cansados da vida,

Mas que ainda assim

Trocam olhares coniventes

E carinhosas festas leves nas mãos engelhadas.

 

A juventude

Que se deita no banco

Depois de um dia atribulado

De estudo,

Ou de trabalho,

Ou de palmilhar ruas

Em busca de um ganha-pão.

 

Aqueles jovens enamorados

Que, a continuarem assim,

Com aquela troca de lábios quentes,

De olhares incendiados,

Com as mãos exploradoras,

Nos quais já se preveem,

Crianças, Ciclistas e futebolistas,

Que inocentes aguardam

O futuro

A que o rego da vida as levará.

    Zé Onofre

28
Out21

Comentário 138

Zé Onofre

                 138

 

2021/06/21

 Que bom

Ouvir alguém chamar

E ignorar.

Que bom ouvir a chuva

Batucar

Nas vidraças

E fazer de conta

Que é hora

De continuar embrulhado

Nos lençóis quentes.

De novo mergulhar

No fundo do sono,

No profundo do sonho,

No âmago do ser.

Ficar

Sem noção do tempo ou do espaço.

Ficar

Apenas estendido

Sem saber de dia, nem hora,

Nem de trabalho, nem de descanso,

Esquecer tudo.

Esquecer o ser.

Esquecer o estar.

Navegar

Nos pingos de chuva

Que de um raio de sol

Faz um campo de cores.

Zé Onofre

27
Out21

Comentário 137

Zé Onofre

                 137

 

2021/06/21

 

A poesia não mora em versos com palavras de sílabas bem contadas e com rimas mais ou menos pobres.

A poesia também não mora em frases que se interrompem para ganharem um ritmo mais ou menos cadenciado.

A poesia mora no olhar, nos sons ouvidos, nos aromas, no paladar, no acariciar.

A poesia mora no que se fantasia com o que e com quem nos rodeia.

A poesia mora no passado que conseguimos tornar presente e levá-lo até ao futuro.

A poesia mora onde houver sensibilidade, mesmo que essa habite num ser analfabeto.

A poesia mora fora de nós.

A poesia não mora na inteligência, nem no conhecimento.

A poesia cerca-nos por todo os lados.

Felizes os que a sabem apreciar verdadeiramente onde ela está.

  Zé Onofre

26
Out21

Comentário 136

Zé Onofre

                     136

2021/06/19

Era uma vez um sonho

Que procurava

Um local mimoso para se aninhar.

Vivia lá no alto

Para lá das fronteiras do arco-íris.

 

Era uma vez um sonho

Que se perdeu

Balouçando à vez

Em cada uma das cores do arco-íris,

Que em pingos de água se criavam,

Cristalinas e belas

Da luz do sol.

 

Era uma vez um sonho

Soprado pelo vento

De nuvem em nuvem.

 

Era uma vez um sonho

Que se sentia abandonado

Sem casa, nem lar.

 

Era uma vez um sonho

Que esperava encontrar lá no chão

Uns braços,

Mesmo que minúsculos

O abraçarão.

 

Era uma vez um sonho

Que desejava ser cativado

Por um peito

Que o faça gritar de luz.

 

Era uma vez um sonho

Que queria dar luz aos cegos

Que veem passar os sonhos

E os deixam passar.

Queria gritar-lhes

Que os sonhos

São tesouros tão raros

Que é crime

Ter braços

E não os abraçar.

  Zé Onofre

25
Out21

Comentário 135

Zé Onofre

135

 

2021/06/17

 

Convencidos

Senhores do Mundo e arredores

Nós 

Convencidos

Que olhar a dor dos outros

Desata em nós dilúvios,

Torrentes de dor,

E nos faz tremer de comoção.

Nós solidários com os outros,

Que sofremos na miséria dos seus dias,

Que dormem onde calha,

Que morrem em lugares mais incomuns.

Nós 

Convencidos

Da nossa grandeza de alma,

Da nossa imensa capacidade de compaixão,

Nunca nos lembramos que somos pó

A sofrer por outro pó.

Porém,

Também não esquecemos

Que são aqueles sentimentos,

Emoções,

Compaixões,

Que fazem do pó que somos

Humanidade.

    Zé Onofre

23
Out21

Comentário 134

Zé Onofre

              134

 

2021/06/

 

Entre campos e montes,

Regos e regatos,

Ribeiros e rios

Me criei.

Chapinhava nos campos

Alagados de água,

Mergulhado nos regos

Até acima dos joelhos.

Nadava nas águas límpidas,

Até ao primeiro mergulho,

Da poça grande.

Rebolava na erva verde das leiras,

Até ao regato, o Tombio,

No fundo da ladeira.

Brincávamos ao esconde-esconde,

Abrindo túneis

Nos campos de centeio,

De onde saíamos a coçar o corpo.

Passávamos

Tardes e noites,

Na cabana de fetos,

A ler, a jogar cartas,

A falar de tudo e de nada.

Corríamos monte abaixo

Até ao Tâmega

No fundo do vale.

Corríamos os montes às pinhas,

Para fazer fogueiras à Srª da Graça,

No alto do monte,

Onde ao outro dia se faziam piqueniques,

E se assistia à Missa

E à procissão.

No Tâmega nadávamos,

Andávamos de barco,

Tostávamos à sombra,

Mas eu não fugia da sombra.

Eram dias lindos e gratuitos

E felizes.

Vivia em pleno,

Inocente e ignorante

Da vida.

   Zé Onofre

22
Out21

Comentário 133

Zé Onofre

133

 

2021/06/11

 

Quando tropeço

No caminho da vida

Caio num profundo vazio.

Fico por lá

Sentado no vazio,

Observando o vazio,

Aumentando o vazio

Onde me encolho

E escondo.

Faço-me perguntas parvas

Que logicamente têm respostas ridículas.

Por lá estou feito tartaruga

Quando uma luz

Vinda de não sei onde,

Para não o sei por quê,

Me desperta do letargo.

Jamais me perguntei qual a cor daquele desterro.

Será que é azul,

Ou cada vazio

Em que tantas vezes caio

Terá a sua cor?

Apenas sei que, seja a cor que tiver,

Tem a cor do desespero.

Zé Onofre

21
Out21

Comentário 132

Zé Onofre

132

2021/06/07

Em quantos labirintos me perdi
À procura dessa imaterialidade
A que chamamos amor?
Quantas palavras mal rabiscadas
Escrevi em papéis inocentes
Que acabaram em bocados na fúria das mãos,
Ou em cinzas na minha fúria inquisitorial?
Quantas palavras ditas no silêncio

 

Da gruta, chamada pensamento,
Que nem direito tiveram
A ver a luz do papel.
Onde estava Ariadne
Quando neles entrei?

Zé Onofre

 

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