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Comentários

04
Dez21

Comentário166

Zé Onofre

                     166

 

2021/08/10

 

No nada não estou só.

Pela cabeça

Passam filmes

Mil vezes vistos,

Tantas vezes revisitados.

 

Em cada cena

Há sempre algo de novo

Que não estava lá

Das outras vezes.

 

Aquele aperto

À beira do tasco

Onde os corpos quase se fundem

Entre risinhos,

Faces coradas,

Mãos inquietamente abandonadas,

Feitas esquecidas

Passeando pelos corpos dos outros.

 

Nunca vinte minutos

Demorou um tempo

Não imenso,

Mas uma eternidade

A passar.

 

A multidão espraia-se

Individualiza-se.

Aparecem os rostos.

A uns abraços,

Para outros, um simples aceno.

Os rostos femininos surgem.

Para algumas um olhar longo,

Para outras, um sinal cúmplice

De futuros encontros.

 

É festa na aldeia.

Não é Verão,

É Maio.

 

No improvisado campo de Futebol

Hoje é uma pista de carros,

Que ao som de música,

Fora de prazo há mil anos

Acompanha os risos,

Os choques,

A perícia dos melhores.

 

Ao lado está o café associativo,

Onde a cerveja corre,

O fumo turva os olhares.

Há jovens fingindo estar por estar,

Enquanto uma mão

Intencionalmente distraída,

Encaracola o cabelo.

Também finge

Não ver uns olhos verdes

Presa nos seus caracóis

E que à saída lhe faz um sinal.

E ele fazendo-se entediado

Segue-a.

 

No fim da tarde

O povo crente alinha-se na procissão,

E jovens, vestidos de verde,

Agradecidos à Santa

Por terem regressado vivos da Guerra,

Preparam-se para levar

O pesado andor coberto a folhas de ouro.

 

A tarde tende para a noite.

As pessoas encaminham-se

De volta ao lar.

O jovem dos caracóis,

Acompanha a dos olhos verdes

Até sua casa.

 

Sem querer,

A escrever sobre tudo e nada

Fiz uma viagem

Aos meus dezasseis anos.

Assim, sem mais nem menos.

04
Ago21

Comentário 48 e 49

Zé Onofre

48

2021/03/20

Também eu sou certamente dois, ou três.

O como me sonho dentro de mim.

O que me vejo no espelho,

Que reflete um outro que desconheço. 

E um terceiro, talvez o verdadeiro,

O que os outros vêm.

Fico sempre a suspirar

E a monologar.

Feliz foi Pessoa

Que era quem queria ser,

E quando queria ser,

E com uma clareza tal

Que nos convence

Que é eles todos.

  49

2021/03/21

Poema há-de ser.

Com todas as cores de todos os poetas.

Com todas as cores de todos os falares.

Com todas as cores de todas as almas.

Com todas as cores de todas as alegrias.

Com todas as cores de todos os chorares.

E se o poema se recusar vir?

Se o poema se recusar

Partilhar?

Se o poema se recusar

Aprisionar?

Vinde todos os ventos,

Vinde todas as aragens,

Vinde todas as tempestades,

Trazei até esta praia

Todos os poetas e todos os loucos.

Com os seus corpos nus,

Com as suas almas puras,

Deles faremos o poema

O mais belo que se poderá cantar.

  Zé Onofre

 

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