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Textos/comentários a publicações de autores de outros blogs.

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Comentários

14
Fev22

Comentário 209

Zé Onofre

                     209 

 

2021/11/01, sobre o postal A tradição a cumprir-se,  Maria, 01.11.21

Hoje S. Pedro

Largou apenas farrapos no céu.

Lembrou-se das crianças,

Da alegria no seu rosto,

Quando em grupos,

Percorrem as ruas 

Com sacos coloridos, 

- "Há pão por Deus".

 

Na minha aldeia

Não havia essa tradição.

Contudo, quando vejo

Um sorriso de saudade

Em quem a viveu,   

Certamente teria adorado,

Quando fui menino,

Andar pelos caminhos

Cantando de casa em casa

- "Há pão por Deus"!

Zé Onofre

09
Nov21

Comentário 148

Zé Onofre

                 148

 

2921/07/16

 

 Há muito,

Muito tempo,

Em que -

“Dos verdes anos

Gozava os doces fruitos”-

Seguia a direcção do meu nariz.

Era feio,

Deselegante,

Inopinado

Um jovem usar calções

- Reservados às crianças,

  No máximo até à quarta classe. –

Ainda, por cima,

Calças mutiladas

Por tesouradas incertas

A três quartos acima do joelho.

Passava e ouvia

Os murmúrios

Estampados nos olhos.

 

Naqueles anos,

Rapaz de saco a tiracolo

Era suspeito

De qualquer anomalia.

Alguns amigos,

Zelosos da minha reputação,

Aconselhavam-me,

Ingenuamente, mas com sinceridade,

A entrar na normalidade.

Sorria

Enquanto lhes respondia

- Se me ladram a vida

É porque estou vivo.

  Zé Onofre

30
Out21

Comentário 140

Zé Onofre

                      140

 

2021/06/28

            

Uma casa abandonada,

É mais do que uma casa

Perdida no capim, 

Buracos em paredes,

Vidros perdidos na rua,

De que as heras tomaram conta,

Até ao telhado que se perde

E nem memória de caminho há.

 

Poderá ser uma casa num beco,

Abandonada de pedras

Menos de rosas que nela florescem,

Saudosas de mãos delicadas

Que outrora as mimaram.

Os pedaços de vida,

Que ainda ecoam nas suas paredes,

São também parte das ruínas.

 

Há outra inevitavelmente

A casa onde nasci.

Que a vida me obrigou a deixar.

Em frente a uma certa janela

Havia uma cama de madeira.

Se atentarmos com os olhos

De ver tempos idos,  

Há muito sepultados 

À flor da pele,

Enxergaremos dois irmãos.

 

O mais novo,

Enleado na cadência da poesia,

Que o mais velho recitava.

Espreitava 

Nas estrelas a Velhinha errante

Cuja marcha da jumentinha

Espalhava farinha

Que branqueava mais a lua e as nuvens. 

 

O mais velho

Esquecido do mais novo

Continuava perdido na poesia.

 

 - "Ai há quantos anos

Que parti chorando

Deste meu carinhoso e saudoso lar..." –

A inocência pensava

Que o mais velho escrevera aquele poema triste.

Muito mais tarde descobriria o Guerra Junqueiro.

 

Outra, agora alicerce doutra que a substituiu,

Foi o meu primeiro "asilo político".

Aos dez anos, a “tirania maternal”

Indicou-me a porta da rua.

Um asilo de luxo,

Com jantar fora de horas,

Composto por comidas preferidas,

Pijama saído do meu armário

Tudo arranjado pela "tirana"

Que fez com que o meu amigo

Descobrisse que eu precisava de cama

E me arrastou consigo.

 

O exílio foi de curta duração.

Acabou resgatado pelo pai,

Que sob as ramadas do terreiro,  

 - Zé, vamos. –

E aquele Zé, que não este,

Voou escadas abaixo

Aninhou-se sob a asa protectora

Que o levaria para o mátrio ninho.

 

Um pouco mais à frente,

Os restos fumados

De uma casa de muitas aventuras.

 

Ultimamente um vagabundo,

Poisava por ali os farrapos,

Que cobriam os seus ossos,

E a saca das sobras que pescava no lixo.

Numa noite de frio  

A fogueira que o deveria aquecer

Deixou-o, de novo,

Sob o teto de estrelas e luar,

Na cama das bermas do caminho.

 

Em tempos idos crianças alegres

Brincavam às casinhas,

Chamavam os bois,

Levavam as vacas a beber.

Bicavam com os dedos

Bagos de cachos que subiam pelo enforcado.

Cortavam milho,

Ripavam espigas da cana

Preparando-as para a esperada

E desejada desfolhada,

Passa culpas de tantas “maroteiras,”

Algumas, então, bem inconfessáveis.

 

Ao anoitecer, dos dias de cozer broa,

Quando relutante ia e não ia

Com um surdo

- Até amanhã –

A Zindinha entregava-me,

Num pano de linho uma broinha.

Nunca nenhuma outra broa foi tão boa.

  

É melhor cortar por aqui

Antes que outras venham

Agarradas quais cerejas.

   Zé Onofre

11
Set21

Comentário 92

Zé Onofre

                        92

Os que gostam do Natal,

Gostam-no por razões diferentes.

Uns pela prendas que recebem,

Outros pela crença religiosa,

Alguns pela reunião da família.

Para mim o Natal

Começava no dia 24 de Dezembro

E terminava às primeiras horas

Do 1º de Janeiro.

Era a semana mais linda do ano.

 

O pai chegava mais cedo,

Jantávamos mais depressa,

Rezávamos o Terço bem despertos.

 

A seguir vinha o melhor.

O pai tirava do bolso um papel dobrado,

Abria-o,

Lia, para os ouvidos curiosos da família,

As Janeiras do ano.

Cantava-as com música dele,

Ou por ele adaptada,

 

Começavam os ensaios

Com o olhar crítico da família

Posto em mim gritando-me,

Cala-te.

 

No dia 31, no fim do jantar,

Partia o grupo dos Janeireiros

A dar as Boas-Festas à casa do tio.

Chegados à porta,

Rompia o coro,

Sem a minha voz,

Para não estragar a Festa.

 

Abria-se a porta,

Os cumprimentos costumados.

A seguir era comer,

Contar natais passados,

Janeiras idas.

Os jovens dançavam.

As crianças sorridentes,

Abriam os olhos de espanto,

E diziam umas para as outras

-Já tantas da manhã e nós a pé.

 

Chegava a hora da partida.

Uns não queriam ir,

Outros não queriam partir.

E no vai e vem até à porta

Passava-se quase uma hora.

Partíamos a custo,

Mas o pai já devia ressonar,

Na sua cama junto da mãe que ficara.

 

Começava a caminhada,

Perna bamboleante

Pé à frente, pé atrás,

Longa de cinco quilómetros.

 

Num ano,

Já com a casa à vista,

Vimos surgir de uma curva,

Um vulto tropeçando nas pernas.

- É o sr. João da Calçada -

Nosso vizinho, falecido havia pouco.

 

As pernas ganharam um último alento.

Sobem as escadas duas a duas,

A porta é quase arrombada

E mais rapidamente trancada.

 

Apenas eu, o mais novo e mais lento,

Fiquei fora da porta

A chorar baba e ranho de todo o tamanho.

Afinal o morto continuava bem enterrado.

Era o sogro do dono do Tasco da aldeia

Que regressava a casa

Com uma “vesana” das antigas.

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