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20
Out21

C0mentário 131

Zé Onofre

                      131

 O mapa de Portugal

Ficava pendurado na parede

Entre duas janelas.

Eram duas janelas

Que escorregavam pela parede

E paravam a um metro do soalho.

Era aquele o local escolhido 

Para as aulas de Geografia.

Mais interessantes, que o velho mapa 

Que já servira gerações de alunos,

Eram as janelas abertas para a vida.

Os olhares mergulhavam nas vidraças,

De onde uma ríspida cana

manejada pelo professor

Nos pescava.

E a lição continuava.

Com a canção das serras,

Estrela, Larouco, Gerês, Marão...

A cantiga dos rios,

Minho, Minho, Lima, Cávado, Ave, Douro, ...

Um outro mais desafinado,

Inseguro cantava-os a custo.

O coro das linhas de ferro,

Suas estações e apeadeiros

E respectivos ramais.

Entretanto,

Pelas vidraças sedutoras

Acompanhavamos as pessoas no largo,

O carro do Neca fazia mais um frete,

Tinha chegado um comboio.

Subíamos ao mais alto dos montes,

Pelos degraus que eram os outros

Que até ele levava. 

O mais alto, no Inverno,

Cobria-se em manto branco lindo..

Tecido em foleca

- Ai de nós que não disséssemos neve -

A cana zangada

Traz-nos à realidade geográfica da lição.

- Sr. Joaquim, tão interessado

No que se passa lá fora,

Aponte no mapa a serra do Marão.

De mão trémula devido ao medo,

Que não à ignorância,

Leva o indicador, de olhos fechados,

À representação do Marão

Desenhada no mapa.

O que o Joaquim não sabia,

Nem os outros seus colegas,

Era que aquele monte mais alto,

Com sua cobertura branca no Inverno, 

Era a serra do Marão.

Se as janelas falassem

Que coisas tão interessantes

não nos teriam ensinado?

  Zé Onofre

       

 

 

 

 

 

 

 

        

 

 

 

 

 

 

 

12
Set21

Comentário 94

Zé Onofre

              94

Olho uma estrela

Seja ela do mar,

Seja ela do céu.

Pouso nela o olhar,

Ou é só um pretexto

Para ver  mais fundo.

 

No meu íntimo.                           

Vejo o que está ali,

Ou vejo cenas de um filme

Do qual fui guionista,

Realizador,

E actor.

Umas vezes bem-sucedidas,

Outras menos bem,

Sempre pedaços de mim.

Umas empurram-me

Para a boca de cena,

Outras criam um manto

Que me isolam tão completamente,

Que mesmo à vista de todos,

Sou invisível na minha solidão.

Zé Onofre

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