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Comentários

30
Out21

Comentário 140

Zé Onofre

                      140

 

2021/06/28

            

Uma casa abandonada,

É mais do que uma casa

Perdida no capim, 

Buracos em paredes,

Vidros perdidos na rua,

De que as heras tomaram conta,

Até ao telhado que se perde

E nem memória de caminho há.

 

Poderá ser uma casa num beco,

Abandonada de pedras

Menos de rosas que nela florescem,

Saudosas de mãos delicadas

Que outrora as mimaram.

Os pedaços de vida,

Que ainda ecoam nas suas paredes,

São também parte das ruínas.

 

Há outra inevitavelmente

A casa onde nasci.

Que a vida me obrigou a deixar.

Em frente a uma certa janela

Havia uma cama de madeira.

Se atentarmos com os olhos

De ver tempos idos,  

Há muito sepultados 

À flor da pele,

Enxergaremos dois irmãos.

 

O mais novo,

Enleado na cadência da poesia,

Que o mais velho recitava.

Espreitava 

Nas estrelas a Velhinha errante

Cuja marcha da jumentinha

Espalhava farinha

Que branqueava mais a lua e as nuvens. 

 

O mais velho

Esquecido do mais novo

Continuava perdido na poesia.

 

 - "Ai há quantos anos

Que parti chorando

Deste meu carinhoso e saudoso lar..." –

A inocência pensava

Que o mais velho escrevera aquele poema triste.

Muito mais tarde descobriria o Guerra Junqueiro.

 

Outra, agora alicerce doutra que a substituiu,

Foi o meu primeiro "asilo político".

Aos dez anos, a “tirania maternal”

Indicou-me a porta da rua.

Um asilo de luxo,

Com jantar fora de horas,

Composto por comidas preferidas,

Pijama saído do meu armário

Tudo arranjado pela "tirana"

Que fez com que o meu amigo

Descobrisse que eu precisava de cama

E me arrastou consigo.

 

O exílio foi de curta duração.

Acabou resgatado pelo pai,

Que sob as ramadas do terreiro,  

 - Zé, vamos. –

E aquele Zé, que não este,

Voou escadas abaixo

Aninhou-se sob a asa protectora

Que o levaria para o mátrio ninho.

 

Um pouco mais à frente,

Os restos fumados

De uma casa de muitas aventuras.

 

Ultimamente um vagabundo,

Poisava por ali os farrapos,

Que cobriam os seus ossos,

E a saca das sobras que pescava no lixo.

Numa noite de frio  

A fogueira que o deveria aquecer

Deixou-o, de novo,

Sob o teto de estrelas e luar,

Na cama das bermas do caminho.

 

Em tempos idos crianças alegres

Brincavam às casinhas,

Chamavam os bois,

Levavam as vacas a beber.

Bicavam com os dedos

Bagos de cachos que subiam pelo enforcado.

Cortavam milho,

Ripavam espigas da cana

Preparando-as para a esperada

E desejada desfolhada,

Passa culpas de tantas “maroteiras,”

Algumas, então, bem inconfessáveis.

 

Ao anoitecer, dos dias de cozer broa,

Quando relutante ia e não ia

Com um surdo

- Até amanhã –

A Zindinha entregava-me,

Num pano de linho uma broinha.

Nunca nenhuma outra broa foi tão boa.

  

É melhor cortar por aqui

Antes que outras venham

Agarradas quais cerejas.

   Zé Onofre

13
Jul21

comentários 47

Zé Onofre

                   47

Numa madrugada de Maio,

Com o sol a espreitar no cimo dos montes,

Estrada fora carregava, a custo, meia dúzia de livros.

De repente uma força irreprimível

Faz das minhas mãos,

Mãos mágicas, fizeram nascer,

Nos meus longos cabelos rosas e mais rosas.

Poucos passos dados,

Os meus pés proclamam a independência,

Voltam atrás e as mãos continuaram,

O seu trabalho.

Agora tinha rosas na boca,

Rosas pendentes das orelhas,

Rosas que desciam braços nus abaixo,

Plantadas nas dobras da camisa.

As loucas, até dos livros fizeram surgir rosas.

Não cheguei ao destino.

Um olhar ríspido,

Um dedo em riste,

Uma directora-estátua,

Apontou-me o caminho de volta.

E eu só ia engalanado com rosas.

Juro que eram só rosas.

  Zé Onofre 

06
Jul21

Comentários 46

Zé Onofre

De braços ao leu

Cabelo a voar,

Que o vento levantava dos ombros,

Caminhava cantarolando e feliz.

De repente uma roseira,

Salta-me ao caminho.

Senti ali um desafio.

E as mãos loucas,

Em roda solta,

Fazem de mim um roseiral.

São rosas nos cabelos,

Rosas na boca,

Rosas pendentes das orelhas,

E claro ramos nas mãos.

Entro no colégio de bem com a vida,

Não termino a subida das escadas.

No alto a directora, de dedo em riste,

Aponta-me a porta da saída.

Zé Onofre

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